De acordo com a Semop, cerca de 3,5 mil pessoas conseguiram o credenciamento para trabalhar na maior festa de rua do mundo.
Por Quézia Silva
Acordar cedo, deixar o café pronto para a família e ir vender seus produtos na esperança de conseguir o dinheiro do dia. Essa é a rotina de milhares de trabalhadores ambulantes de Salvador. Muitas mães solos precisam arcar sozinhas com todos os custos de casa e sem um salário fixo, elas precisam se virar nos trinta para alimentar os filhos, dar educação e além disso, amor e atenção. Há dias que vendem muito, outros dias não conseguem vender absolutamente nada. Mas nenhum desses trabalhadores ambulantes desistem, e no próximo dia tentam novamente. Foi assim que muitos deles passaram dias em frente à Secretaria Municipal de Ordem Pública (Semop), no intuito de conseguirem trabalhar na folia momesca deste ano.
No período de carnaval, a cidade se enche de baianos e turistas que vêm para brincar e conhecer a capital. Mas, existe o outro lado da folia, o lado que também sustenta a cidade e movimenta a economia. De acordo com a Semop, cerca de 3,5 mil pessoas conseguiram o credenciamento para trabalhar na maior festa de rua do mundo. Muitos deles passaram um mês acampando para conseguir. Debaixo de sol e chuva, eles estavam na frente do órgão querendo somente trabalhar, e muitos deles conseguiram. Mas a situação não mudou muita coisa.
Delmara Sales, de 47 anos, era uma das trabalhadoras ambulantes que estava no circuito Barra-Ondina, próximo ao Cristo. Ela conta que passou alguns dias em frente a Semop, sempre revezando com outra pessoa para conseguir o credenciamento, mas que seu sacrifício não valeu a pena. “Pelo que eu investi, o carnaval não compensou não. A cervejaria é um pouco cara, e tem gente que não gosta da marca. Além disso, o gelo está muito caro, estamos comprando de R$25 – R$30 o pacote. Desde que começou o carnaval eu consegui vender cinco caixas de água e trinta de cerveja. Mesmo assim é complicado, pagamos a licença, mas cervejaria que patrocina estabelece o preço que temos que vender, e não temos lucro algum”, desabafou.
Dentre as queixas dos trabalhadores estava também a falta de apoio. O vendedor de churrasquinho, Genival Ferreira, fala que a classe trabalhadora precisa ser mais ouvida. “O vendedor ambulante devia ser melhor assistido. Após a finalização da festa, os órgãos municipais, deveriam sentar com as pessoas que trabalham para estudar uma forma de trazer melhoria para nós. Infelizmente o carnaval está perdendo esse brilho. Pode não parecer, mas quem traz a alegria somos nós. E somos a classe menos assistida. Trabalhamos porque precisamos. Mesmo com tudo isso, conseguimos brincar e curtir um pouco na folia”, afirmou.
Cansados dos dias extensos de trabalho e ainda sem um retorno positivo no saldo. Esses trabalhadores ambulantes são mães e pais que vão para a folia tentar receber o dinheiro para pagar a farda dos filhos, comprar materiais escolares e pagar as dívidas. Ana Paula Rocha (51), era uma das vendedoras que estavam no circuito Dodô. Mesmo exausta, notava-se a alegria em seu rosto por ter conseguido vender bem nos dias de carnaval. “Eu fiquei dois dias na fila da Semop e consegui a licença e graças a Deus eu consegui vender, está suprindo as minhas necessidades e vou conseguir pagar minhas contas”, contou.
Tribuna/Foto: Romildo de Jesus


