Levantamento apontou mais de 50 casos fatais ou de ferimentos graves devido aos jogos
Por Hieros Vasconcelos Rêgo
Os ‘jogos perigosos’, a maioria deles surgidos na internet, têm atraído cada vez mais crianças e adolescentes de todo o país, causando preocupação nos pais e em diversos especialistas das áreas de educação, pediatria, psicologia e de segurança pública. São práticas como autoagressão ou hétero-agressão, asfixia, apneia sufocamento, ingestão de detergentes, de pílulas desconhecidas, e pastilhas de sabão como refeição. Engolir chips e bolinhas magnéticas também são alguns dos ‘desafios’.
Um levantamento recente feito pelo Instituto Dimicuida, sediado em Fortaleza (CE), detectou mais de 50 casos fatais ou de crianças e adolescentes gravemente feridos, com idades entre 7 e 18 anos, decorrentes desse tipo de ação criminosa de 2014 e 2022. Coletados de maneira informal, através da mídia ou de comunicados, os números sequer abrangem a totalidade, uma vez que são subnotificados, mas apontam para um buraco ainda maior.
Apesar da realidade já existir há mais de 20 anos, ela tem tomado maior forma através do acesso amplo à internet e à disseminação das comunidades extremistas e maliciosas que espalham discursos agressivos, de violência e de ódio. São desses lugares, antes no submundo da internet e hoje nas redes sociais e na superfície, que surgem a maioria dos jogos perigosos, mas também suscitam incentivos aos ataques, ou ameaças às instituições de ensino, situações vivenciadas recentemente pelo Brasil e também pela Bahia. “É um problema de saúde pública, de segurança e social”.
Especialistas reforçam a importância de não culpar, julgar ou punir as crianças e jovens, levando sempre em consideração a questão de que são mais impulsivos e isso, geralmente, está ligado ao desenvolvimento. Há toda uma efervescência na cabeça do adolescente: questões como autoafirmação diante de grupos, necessidade de mostrar poder, de disputa de egos, de bullyings.

O público entre sete até 18 anos é o que está mais exposto ao risco, pais devem ficar em alerta | Foto: Romildo de Jesus
No entanto, se faz necessário o entendimento de que o problema é social e envolve todas as esferas públicas e privadas. O pedagogo e mestre em Políticas Sociais, Manoel Calazans, define: “É um problema da sociedade. Uma escolha política de alguém que evidencia discurso de ódio e violência na sua prática é reflexo de uma sociedade adoecida. Tem discurso de ódio que começa na sociedade e adentra os lugares, as escolas. É importante assistência social, psicológica, mas tem que tratar a raiz disso”, afirma.
A preocupação em torno do assunto também levou à Sociedade Brasileira de Pediatria emitir, na semana passada, uma nota pública: “A importância da atualização da comunidade médica e especialmente dos pediatras sobre orientações a respeito da prevenção dos riscos e da segurança on-line em cada consulta. Fundamental a conscientização sobre os riscos on-line para os educadores escolares, psicólogos e profissionais da área de saúde mental que trabalham com crianças e adolescentes em diferentes comunidades e circunstâncias”, acrescenta.
Desde 2019, a OMS (Organização Mundial da Saúde) tem considerado os “jogos perigosos” (hazardous games, em inglês) um distúrbio comportamental listado na CID (Classificação Internacional de Doenças). São definidos como “um padrão de jogatina, online ou offline, que aumenta sensivelmente o risco de consequências prejudiciais à saúde mental ou física” de um indivíduo.
Diversos debates costumam chegar ao consenso de que é preciso, urgentemente, promover ‘cultura da paz’ na sociedade e defender a criminalização urgente não só dos jogos, mas das comunidades e dos autores, que pouco são descobertos. Além disso, frisam que não é só dos pais a responsabilidade, mas de toda sociedade civil organizada e dos poderes públicos. Também apontam ser fundamental qualificar o serviço de inteligência das polícias para que seja capaz de coibir e criminalizar aqueles que estão por trás desses jogos.
Manoel Calazans ressalta que existe hoje um processo na internet de cooptação de jovens para conteúdos, gaymes, dentre outros, que tem uma radicalização muito forte. “Algumas pesquisas dão conta disso. Chats, conversas, grupos, que funcionam como mecanismo de aliciamento dos jovens por essas comunidades, que discutem questões relacionadas a violência, táticas de aliciamento dos jovens. O que até então existia apenas no subsolo da internet, hoje está bem na superfície, está comercial e nas redes sociais”, afirma.
Promover a cultura da paz é função de toda a sociedade
Para colaborar com a solução do problema, a Secretaria de Educação do Estado da Bahia, por exemplo, desenvolve um currículo que tem a pedagogia de paz como princípio. Também distribui cartilhas para as famílias e as escolas no site. “Governo do Estado fez comitê envolvendo várias secretarias, Ministério Público e Defensoria pública que propõem políticas de enfrentamento à violência, e nas escolas temos um currículo que evidencia a política de paz”, diz.
Conforme o pedagogo Manoel Calazans, “a família e a escola são preparadas para uma discussão mais densa sobre a questão da violência e da humanização dos processos entre as pessoas. “Um currículo que trate da pedagogia de paz, na mediação de conflito dentro das escolas. Quando a gente imagina que esse jovem que passa por esse situação de violência e se envolve nisso, antes ele foi vítima do bullying, de uma fala homofóbica, de uma situação de inferioridade em relação ao corpo”, diz Manoel Calazans, acrescentando ainda a cultura do “afeto”, essencial.
Para ele, é urgente que se envolvam todas as esferas. “Uma família que o pai trabalha 6 horas da manhã e chega em casa meia-noite, não tem como ter esse controle, e não tem como colocar na família a capacidade de monitoramento. Por isso é preciso envolver toda a sociedade, os poderes, as escolas, a mídia”.
Criminosos – A Sociedade Brasileira de Pediatria destaca ainda que é preciso criminalizar os autores e criadores que disseminam ódio. “Vale destacar que há um ganho material para aqueles que promovem esses atos, devido à recompensa pelo número de visualizações e prestígio no mundo virtual. Nesse sentido, a SBP lamenta que, mesmo diante da gravidade da situação, os envolvidos nesses crimes não sejam responsabilizados e não recebam punição adequada por praticarem essa indução direta ou indireta através da Internet”, frisa Evelyn Eisenstein, coordenadora do GT Saúde na Era Digital.
Ter diálogo e convivência aberta, positiva e parceira com os jovens e filhos também ajuda
Caminhos como uma boa conversa é um primeiro passo. Tudo isso sem tentar parecer autoritário demais de forma que induza o jovem fazer justamente o contrário. Buscar fontes de informação e conhecimento com credibilidade e não disseminar fake News de whatsapp.
Veja dicas
- Tome a iniciativa para uma conversa sobre os desafios que eles ouviram em seu círculo de amigos. Pergunte, com calma e sem julgamentos, o que eles pensam sobre.
- Conte o que pode acontecer com alguém que aceita o desafio. Você pode, se for o caso, limitar o contato com certas crianças ou tornar atividades específicas fora dos limites.
- Se há interesse em participar de um desafio, use perguntas abertas para incentivá-lo a pensar em cada etapa do desafio. Peça-lhes que considerem o pior resultado. O que fariam isso e se vale a pena. As curtidas e comentários valem horas no pronto-socorro
Tribuna/Foto: Reprodução


