Entre 2015 e 2024, a Sesab contabilizou 14.966 casos no estado
Por Rayllanna Lima
O principal sinal de uma hepatite viral pode ser justamente a ausência de qualquer sinal. Sem dor, febre ou indisposição, uma pessoa pode conviver durante anos com a infecção enquanto o fígado sofre lesões progressivas. Quando o organismo finalmente dá o alerta, a doença pode já ter evoluído para cirrose, câncer hepático ou necessidade de transplante.
O tamanho desse silêncio aparece nas estatísticas. Segundo o Boletim Epidemiológico de Hepatites Virais 2025, do Ministério da Saúde, a Bahia registrou 30.159 casos entre 2000 e 2024. No mesmo período, o Sistema de Informações sobre Mortalidade contabilizou 3.204 óbitos nos quais as hepatites A, B, C ou D apareceram como causa básica ou associada. Os dados dos últimos anos da série ainda são preliminares.
A hepatologista Nayana Vaz, do Hospital Mater Dei Salvador, explica que a ausência de sintomas não deve ser confundida com a ausência da infecção. “A pessoa pode conviver anos com hepatite B ou C sem saber. Quando aparecem sintomas, muitas vezes o fígado já apresenta sinais de comprometimento. Por isso, o teste deve ser entendido como parte do cuidado preventivo, especialmente em quem nunca foi testado ou teve alguma situação de risco”, alert
Recorte
Um recorte mais recente da Secretaria da Saúde da Bahia mostra como o perfil da doença mudou ao longo dos anos. Entre 2015 e 2024, a Sesab contabilizou 14.966 casos no estado. A hepatite C respondeu por 7.729 registros, ou 51,6%, seguida pela hepatite B, com 6.815 casos, ou 45,5%. A hepatite A somou 422 notificações. No mesmo período, foram registrados 609 óbitos relacionados às infecções, dos quais 551 estavam associados à hepatite C.
É nesse intervalo entre a infecção e o surgimento dos sintomas que a testagem pode mudar o curso da doença. O exame rápido é oferecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e pode ser procurado mesmo por quem se sente bem. Até maio deste ano, a Bahia havia recebido 262,7 mil testes para detecção da hepatite C.
O cuidado é especialmente recomendado para quem nunca realizou o exame ou passou por situações de possível exposição, como contato com sangue contaminado, relações sexuais sem preservativo, compartilhamento de seringas, lâminas, alicates de unha e escovas de dente ou realização de tatuagens e piercings com materiais sem esterilização adequada.
A infectologista e consultora da Organização Nacional de Acreditação (ONA), Cláudia Vidal, chama atenção para a ampliação do acesso ao diagnóstico. “O aumento na distribuição de testes rápidos é um passo decisivo para mudar esse cenário. Quanto mais pessoas puderem fazer o exame, maiores serão as chances de descobrir a infecção antes que o fígado apresente danos irreversíveis. É importante que a população saiba que o teste está disponível
gratuitamente no SUS. E caso a pessoa sinta qualquer um destes sintomas, como fadiga, febre, indisposição, náuseas, vômitos, dor abdominal, pele e olhos amarelados (icterícia), urina escura e fezes claras, deve procurar um médico. O diagnóstico precoce ajuda na cura”, alerta.
Quando aparecem, os sintomas podem incluir fadiga, febre, náuseas, vômitos, dor abdominal, urina escura, fezes claras e pele ou olhos amarelados. A presença desses sinais exige avaliação médica, mas não deve ser o único motivo para procurar o teste.
Do teste ao acompanhamento
Em Salvador, a vacinação contra as hepatites A e B está disponível em 162 unidades da rede municipal, sendo 116 Unidades de Saúde da Família e 46 Unidades Básicas de Saúde. O atendimento ocorre de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h. A população também pode procurar a sala de vacinação instalada no Salvador Shopping, que funciona diariamente em horário estendido. Os dados mais recentes divulgados pela Secretaria Municipal da Saúde mostram que 215 casos foram notificados entre moradores da capital no primeiro semestre de 2024. A hepatite C concentrou 128 registros, seguida pela B, com 74, e pela A, com nove.
A coordenadora de Imunização da SMS, Doiane Lemos, destaca que a proteção também reduz a possibilidade de evolução para quadros graves. “A imunização previne a ocorrência das doenças, reduz a gravidade dos casos e evita complicações. No caso das hepatites, ela protege contra formas que podem causar danos importantes ao fígado, como inflamação crônica, cirrose, câncer e até a necessidade de transplante”, afirma.
A vacina contra a hepatite B integra o calendário nacional e é aplicada desde o nascimento. Adolescentes, adultos e idosos que não foram imunizados ou desconhecem o próprio histórico podem procurar uma unidade para avaliação da caderneta. A vacina contra a hepatite A é oferecida às crianças aos 15 meses e também a grupos específicos definidos pelo Ministério da Saúde.
Além da vacinação, a rede municipal oferece testes rápidos. Quem recebe resultado positivo é encaminhado para exames complementares e acompanhamento nos ambulatórios dos Multicentros de Saúde Carlos Gomes e Vale das Pedrinhas. Segundo a SMS, cerca de 2 mil pacientes são acompanhados atualmente nos dois serviços especializados.
As formas de prevenção mudam conforme o vírus. A hepatite A está relacionada principalmente ao consumo de água ou alimentos contaminados. As hepatites B e D podem ser transmitidas pelo sangue, por relações sexuais sem preservativo e da mãe para o bebê. Já a hepatite C ocorre sobretudo pelo contato com sangue contaminado e não possui vacina.
Quando a infecção é descoberta, também há tratamento disponível. A hepatite C pode ser curada em mais de 95% dos casos com antivirais de ação direta ofertados pelo SUS. A hepatite B ainda não tem cura, mas pode ser controlada com acompanhamento médico, reduzindo o risco de cirrose e câncer de fígado.
Tribuna / Foto: Reprodução


