Governador Rui Costa (PT) acredita que o surto de H3N2 somado ao aumento no número de casos ativos e internações por Covid torna o cenário “impossível” para se pensar na realização da folia de Momo nos moldes tradicionais
Por Lily Menezes
Depois de várias reuniões e diálogos com os atores envolvidos na maior festa de rua do planeta, como o Conselho Municipal do Carnaval (Comcar) e entidades representativas do setor de entretenimento, agora é oficial: o Carnaval 2022, que estava previsto para acontecer entre os dias 24 de fevereiro e 1° de março, não vai mesmo acontecer. O martelo foi batido pelo governador Rui Costa (PT) durante a entrega de reformas na emergência do Hospital Geral Roberto Santos na manhã desta quinta-feira (23). Sabendo da importância econômica e cultural da festa, Rui foi adiando a decisão, mas a alta nos indicadores da pandemia foi minando as possibilidades para o Carnaval. A explosão de casos de Influenza A em vários estados, incluindo a Bahia, jogou uma pá de cal nas expectativas dos carnavalescos e de quem já estava com saudade de uma pipoca.
“Hoje, é impossível, com a crise da pandemia e com a crise da nova gripe, que está matando pessoas. E com as UPAs e as unidades de saúde lotadas em vários municípios, é impossível pensar em realizar um evento que reúne três milhões de pessoas”, declarou o governador. “Precisamos ter responsabilidade com a saúde e a vida das pessoas”. No momento, indicadores da Secretaria de Saúde da Bahia (Sesab) mostram que 2.941 pessoas ainda lutam contra a Covid-19 e a ocupação dos leitos de UTI permanece em 54%, com 276 pacientes em situação mais grave. O temor, no momento, é de que haja um novo pico de casos e óbitos, principalmente com o surto de gripe. “Essa gripe tem se mostrado letal: não só leva ao hospital, mas tem provocado mortes”, preocupou-se o gestor.
Já o prefeito de Salvador Bruno Reis (União Brasil) ainda não se manifestou sobre o assunto, pois esperava até o ‘último momento’ para tomar sua decisão, mas já adiantou que estaria alinhado com o Governo do Estado quanto a um possível cancelamento, por estar mais preocupado com a situação epidemiológica na cidade. Bruno até sinalizou para a realização da folia momesca num molde diferente do conhecido pela população, com exigências como o comprovante de vacinação completa para o acesso, porém nada foi definido até então. Flávio Emanoel, presidente do Comcar, comentou a decisão do governo estadual. “O setor privado já tomou suas providências: os camarotes se tornam festas fechadas, as bandas estão fechando contratos em outras cidades como São Paulo e interior, e nossa grande preocupação é com esse lado cultural. A gente deixa de injetar na economia de Salvador em torno de R$ 1,8 bi numa economia que já está falida”, argumentou.
Para além das entidades carnavalescas, o maior ponto de atenção para o presidente do Comcar é a cadeia produtiva envolvida na folia, que pode ficar numa situação financeira ainda mais difícil depois do fim da alta temporada. “Esse anúncio do governador afeta diretamente a classe trabalhadora, como mototaxistas, ambulantes, garçons, o que a gente chama de proletariado, aqueles que metem a mão na massa. A gente entende a preocupação do governador, mas nos preocupa muito mesmo o pós verão sem Carnaval em Salvador”, pontuou Emanoel. O setor do entretenimento chegou a fazer uma moção chamada ‘Carnaval Responsável’, com uma manifestação no Farol da Barra em 21 de novembro e anúncios espalhados pela cidade com imagens de garçonetes, produtoras e outros profissionais da folia com os dizeres: “Me ajude, vacine-se também. Preciso trabalhar. Quero meu Carnaval”.
O diretor da Central do Carnaval Joaquim Nery havia suspendido a venda de abadás e a realização de festas durante a folia de Momo, e ontem oficializou o adiamento dos únicos blocos à venda no site da Central, o Camaleão, o Nana Banana e o Vumbora! para 2023. Os clientes poderão ter o ressarcimento dos valores pagos ou reagendarem os ingressos comprados. Outros envolvidos também mostraram tristeza com a decisão. Augusto Brandão, que trabalha com Bell Marques desde 1994 e confirmou a não realização dos desfiles dos blocos puxados pelo ícone do Chiclete com Banana, se pronunciou sobre o assunto numa rede social. “Vamos aproveitar esse espaço de tempo que ganhamos e fazer um Carnaval 2023 ainda mais fantástico; vamos aproveitar esse novo espaço de tempo que ganhamos a cada dia ao acordarmos, para fazer cada momento das nossas vidas ainda mais inesquecível e proveitoso”, frisou.
Foto: Romildo de Jesus/Tribuna da Bahia


