Com a alta dos juros, desemprego, endividamento crescentes e inflação muita gente enfrenta dificuldades de pagar a prestação da casa própria.
Por Raphaela Ribas, Geralda Doca, Pollyanna Brêtas e Roberta de Souza; Agência O Globo
No início do ano passado, o sonho da casa própria, aguçado pelo isolamento da pandemia, encontrava condições mais favoráveis que as atuais para se concretizar. A taxa básica de juros (Selic) no patamar histórico mais baixo (2% ao ano) favoreceu linhas de crédito imobiliário com juros em torno de 8% ao ano, e novas modalidades de crédito prometiam ampliar o acesso.
Além dos tradicionais financiamentos com juros fixos e Taxa Referencial (TR) em sistemas de amortização SAC ou Price, os bancos passaram a oferecer opções com juros pré-fixados atrelados à inflação medida pelo IPCA (que começou 2021 na casa dos 4,5% em 12 meses) ou ao rendimento da poupança. De lá para cá, tudo isso mudou.
A inflação disparou e forçou o Banco Central a elevar a Selic, que saltou para os atuais 13,75% anuais em pouco mais de um ano. A média dos juros fixos no crédito imobiliário acompanha a escalada e já está também em dois dígitos, em torno de 10%. Os mutuários que tomaram o risco do crédito atrelado ao IPCA ficaram em maus lençóis. O índice acumula alta de 10,07% nos últimos 12 meses.
Com a alta dos juros em meio ao quadro de desemprego e endividamento crescentes e inflação corroendo a renda, muita gente enfrenta agora dificuldades de pagar a prestação da casa própria. É crescente o número de compradores de imóveis na planta que desistem — e pedem o chamado distrato — e de mutuários que tentam renegociar contratos nos bancos, que estão flexíveis como nunca.
Os distratos subiram 16% na comparação entre o registrado de janeiro a maio deste ano e no mesmo período do ano passado, segundo a Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), com dados do sistema Indicadores Abrainc/Fipe.
O setor de construção diz que o crescimento acompanha a alta das vendas nos últimos anos, mas agentes do mercado imobiliário e especialistas sustentam que os distratos não se intensificaram ainda mais por causa do esforço de bancos e construtoras para dar fôlego aos clientes e minimizar os danos.
Segundo Paulo Pôrto, professor de Negócios Imobiliários da FGV e diretor de Negócios da Arqos Incorporadora, sem esse freio, as taxas de juros dos bancos chegariam a 15% com o atual patamar da Selic:
“Haveria muita inadimplência. Isso poderia causar uma bancarrota no mercado”.
Foto: Romildo de Jesus / Tribuna da Bahia


