Com o pretexto do desmatamento da Amazônia, Washington volta a pressionar governos latino-americanos
Por Marcelo Godoy, da Agência estado
Era 12 de abril quando o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Peter Hegseth, afirmou, ao se referir à América Latina: “Vamos recuperar o nosso quintal”. Seu raciocínio era de que as administrações anteriores haviam sido omissas em relação à região, permitindo que a China estabelecesse contratos e relações que ameaçam os EUA.
A frase não passou despercebida. Observadores das relações internacionais sentiram, de imediato, que o potencial da ventania, que nascia em Washington, dirigia-se ao Sul. O Panamá foi o primeiro país a senti-la e, depois, a Colômbia. No Brasil, como sempre, as elites, o governo e a oposição se comportaram como se a história não lhes dissesse respeito. Ninguém lhes disse o de te fabula narratur.
Como escreveu o historiador francês Marc Ferro, não há seguro contra a história. Ela pretende ser uma “ciência por rastros”, como uma vez formulou Marc Bloch, ao lidar com a memória e com o esquecimento. Quando acontece diante de todos, ela é presença. Os vestígios estavam à vista dos países: a irracionalidade da gestão americana, a polarização política, os abalos na aliança atlântica, o rearmamento da Europa, a humilhação de Zelenski e as ameaças à soberania do Canadá e da Dinamarca.
E o que dizer das taxas contra União Europeia, China, Japão, México, Canadá e África do Sul? Tudo dirigido para além dos muros do “quintal americano”. Não era o caso de governos e elites dos diversos países da América Latina terem se preparado para o dia em que Donald Trump voltasse seus olhos para o que seu governo considera ser o seu “quintal”? Por que diabos pensaram que isso não era com eles?
Em pouco mais de 15 dias, o governo americano impôs sanções à nossa economia em razão do destino da família Bolsonaro, chantageando o Poder Judiciário, o empresariado e os trabalhadores do País, agindo como se buscasse o pizzo, a taxa de proteção cobrada pelas máfias. Ou o comerciante paga, ou o fogo destrói seu negócio. Ou se contrata o apadrinhado do mafioso ou não se estará em segurança.
Um ponto, no entanto, chamou a atenção de observadores militares consultados pela coluna: o fato de Trump, que nunca tomou a pauta ambiental para si, ter usado como argumento para suas sanções o desmatamento ilegal da Amazônia. Por qual motivo um presidente que retirou seu país do Acordo de Paris, defensor dos combustíveis fósseis e cujos apoiadores não acreditam no aquecimento global resolveu defender a Amazônia?
A carta de Trump, que citou a questão ambiental entre os motivos para as sanções contra o Brasil, não passou despercebida no Forte Apache, o Quartel General do Exército. “Não é a bandeira dele (Trump)”, disse um general. O atual cenário caótico, causado pela ausência de racionalidade, seria como se as discussões estivessem “vedadas aos adultos da sala”. O general alertou: se a soberania da Amazônia for ameaçada, será “a morte da estratégia bolsonarista”.
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