Censo aponta esvaziamento populacional da região central da cidade
Por Livia Veiga
A cada dez anos, os dados dos Censos Demográficos revelam tendências de ocupação urbana nas grandes cidades e são insumo para formulação de políticas públicas e para alocação de investimento privado. De acordo com os “Resultados do Censo 2022: Agregados por Setores Censitários Preliminares – População e Domicílios”, levantamento divulgado nesta quarta-feira (21) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre 2010 e 2022, a população de Salvador diminuiu 9,6%, maior recuo entre as capitais, indo a 2.417.678 habitantes, e além disso, cinco subdistritos viram sua população cair: Pilar (-35,5%), Mares (-34,8%), Santana (-32,0%), Passo (-31,1%) e Nazaré (-30,9%).
Como explica Mariana Viveiros, supervisora de disseminação de informações do IBGE na Bahia, os subdistritos que mais se esvaziam, no âmbito do adensamento populacional, são aqueles de ocupação bem antiga e o que se percebe é a mudança de perfil dessas áreas, de residencial para o de serviços e comércio. “Áreas centrais também passaram por um processo de degradação urbana, de perda dos valores dos imóveis, saída de escolas e universidades, de uma questão de segurança, um processo que se verifica também em outras cidades, como São Paulo”, afirma.
Segundo ela, esse processo de esvaziamento, comum a grandes centros urbanos, não está acontecendo em Salvador só nos últimos 12 anos, mas pode ser exemplificado pelo movimento de criação de bairros como Pituba e Caminho das Árvores, por volta dos anos 70 e 80, de expansão e de saída do centro.
Os dados do IBGE revelam ainda que Pilar (-13,5%), Mares (-6,8%) e Nazaré (-0,2%) foram os únicos subdistritos que também mostraram redução no total de domicílios. Com áreas relativamente pequenas, eles estão na região central de Salvador, reunindo alguns dos bairros de ocupações mais antigas da capital, parte deles na Cidade Baixa: o subdistrito de Pilar é basicamente formado por quase todo bairro do Comércio; já o subdistrito de Mares reúne os bairros da Calçada, Mares e Boa Viagem; Santana, por sua vez, engloba o Tororó e parte de Nazaré; enquanto o subdistrito de Nazaré reúne o restante de Nazaré e Saúde.
Como ressalta Viveiros, esses dados são essenciais para a gestão pública, pois servem de insumo para o planejamento urbano, “para se pensar a cidade, inclusive, para o futuro”, aproveitando a estrutura dessas áreas que estão esvaziadas para outro perfil de ocupação ou para voltar a atrair população.
Vetor de crescimento
Por outro lado, os dados do IBGE apontam para um cenário de crescimento populacional: o número de habitantes cresceu em quatro dos 22 subdistritos da capital baiana nos últimos 12 anos, sendo eles, São Cristóvão (+35,1%), Itapoã (+10,4%), Maré (+2,0%) e Valéria (+0,1%). Esse resultado indica um vetor de crescimento da cidade, ou de migração da população na direção dos municípios da Região Metropolitana de Salvador, como explica a supervisora de disseminação de informações do IBGE na Bahia.
O subdistrito que contempla os bairros de São Cristóvão, Jardim das Margaridas, Mussurunga, Itinga, Cassange, Areia Branca e Nova Esperança, e que fica na divisa entre os municípios de Salvador e Lauro de Freitas, está na liderança deste fenômeno. “A gente sabe que Salvador perdeu população, de uma forma geral, a maior parte dos subdistritos tem uma perda de população, mas onde a gente vê crescer é nessas ‘franjas’ da cidade e a maior parte dessas áreas de crescimento são de baixa renda”, afirma Viveiros.
O que a especialista entende como “franjas” são territórios e com proximidade maior de outros municípios da região metropolitana. “Talvez a gente esteja vendo agora em Salvador, pela primeira vez, a periferização, no sentido de ocupação distante do centro”, afirma, ao citar que esse cenário já é evidente em cidades como São Paulo e Belo Horizonte.
O potencial de atração de população destes subdistritos, portanto, pode ser explicado pela facilidade de construção (em razão do território extenso), menor preço para aquisição do imóvel e estruturação em termos de serviços e de comércio. “Eles estão muito perto de outras cidades da Região Metropolitana de Salvador, em que também se vê uma estruturação importante e por serem áreas maiores e mais afastadas do centro, se tornam mais atraentes do ponto de vista de custo-benefício de moradia”, explica.
Tribuna/Foto: Romildo de Jesus


