Segundo economistas medidas como cortes de impostos, estímulos ao crédito e a liberação do saque extraordinário do FGTS vão na direção contrária do que deveria ser feito para controlar a inflação.
Por Francisco Carlos de Assis e Eduardo Laguna
Enquanto o Banco Central (BC) tem elevado os juros para esfriar a economia e combater a escalada da inflação, o governo do presidente Jair Bolsonaro (PL) tem atuado, em sintonia com o Congresso, como um adversário e aprovado medidas que estimulam o consumo, pressionando ainda mais a alta de preços no País.
Medidas como cortes de impostos, estímulos ao crédito e a liberação do saque extraordinário do FGTS vão na direção contrária do que deveria ser feito para controlar a inflação, segundo economistas. Isso tende a adiar os efeitos dos remédios adotados pelo BC, mantendo a inflação elevada por mais tempo.
O movimento feito pelo governo desde o fim do ano passado isolou o BC no momento em que ele enfrenta os impactos nos preços de alimentos e combustíveis vindos da guerra na Ucrânia. Como consequência, os juros podem subir mais, e não devem voltar a cair antes de março do ano que vem.
“É como dirigir um carro e pisar no freio e no acelerador ao mesmo tempo”, diz Fábio Akira, economista-chefe da BlueLine e ex-JP Morgan. “O freio não terá a mesma eficiência. O mesmo acontece quando políticas de estímulo à demanda atuam contra o aperto monetário.”
Assim como Akira, economistas ouvidos pelo Estadão/Broadcast são categóricos na avaliação de que o BC está sozinho para realizar um trabalho que já seria naturalmente desafiador após a pandemia, quando governos e bancos centrais do mundo todo injetaram dinheiro na economia para evitar um colapso financeiro.
“É uma tarefa hercúlea, essa do BC de combate à inflação. Ele não tem nenhuma ajuda vinda do outro lado da Esplanada”, aponta o ex-diretor de Política Monetária da Banco Central, Aldo Mendes, que classifica como solitária a batalha do BC no combate à inflação.
O governo pisou no acelerador ao antecipar a liberação do décimo terceiro de aposentados e ao autorizar o saque de até R$ 1.000 do FGTS para os trabalhadores. Em paralelo, a expectativa é que os investimentos públicos, incluindo os de governos estaduais e prefeituras, ganhem força em ano eleitoral. Mais gastos para o consumo e para investimentos contribuem para transferir ao segundo semestre os efeitos da alta de juros na atividade econômica.
Para Aldo Mendes, a política fiscal se vinculou à agenda eleitoral, e não restou outra opção a não ser manter a taxa de juro em elevação. Segundo o ex-diretor do BC, o quadro, que já era complicado por causa da inflação disseminada, ficou mais difícil diante do aumento de juros mais rápido nos Estados Unidos, que estimula uma saída de capital estrangeiro e pressiona a cotação do dólar. “Vejo o governo continuando a gastar na ilusão de que a arrecadação está aumentando, e um BC mantendo o juro em elevação, sem decretar o fim do ciclo de alta”, resume.
Fonte: O Estado de S.Paulo/
Foto: Redação Onze


