“O maior risco é fitossanitário e infeccioso. Como são produtos injetáveis, existe risco de contaminação por bactérias e fungos, além de contaminação cruzada durante a manipulação”, afirma o especialista
Por Marcos Vitório
A decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária de proibir a comercialização e o uso das canetas emagrecedoras Gluconex e Tirzedral reacendeu um debate que vem crescendo nos consultórios médicos e nas redes sociais: até onde vai o risco de utilizar medicamentos para emagrecer sem controle sanitário e sem acompanhamento profissional?
Em meio à busca pelo emagrecimento rápido, especialistas alertam que o uso indiscriminado dessas substâncias pode trazer consequências sérias, que vão desde desnutrição e perda muscular até infecções graves e danos aos órgãos vitais.
As chamadas “canetas emagrecedoras” ganharam popularidade principalmente por prometerem perda de peso acelerada. Muitas delas utilizam substâncias como semaglutida e tirzepatida, originalmente desenvolvidas para o tratamento do diabetes e da obesidade. O problema, segundo médicos e nutricionistas, é que o crescimento da procura abriu espaço para a venda clandestina de produtos falsificados, manipulados sem fiscalização e comercializados ilegalmente pela internet e pelas redes sociais.
Para o cardiologista Marcos Barojas, do Hospital Mater Dei, o principal perigo desses produtos irregulares não está necessariamente no efeito cardiovascular direto da substância, mas na ausência total de controle sanitário durante a fabricação e aplicação. Ele explica que medicamentos injetáveis exigem um padrão extremamente rigoroso de segurança e esterilização, algo que dificilmente é garantido em produtos clandestinos.
“O maior risco é fitossanitário e infeccioso. Como são produtos injetáveis, existe risco de contaminação por bactérias e fungos, além de contaminação cruzada durante a manipulação”, afirma o especialista. Segundo ele, qualquer falha no armazenamento, transporte ou aplicação pode provocar infecções graves e até comprometer outros órgãos do corpo.
O perigo invisível dentro das canetas ilegais
Outro ponto que preocupa os especialistas é a possibilidade de os produtos conterem substâncias diferentes das informadas na embalagem. Como não passam por fiscalização da Anvisa, não há garantia de pureza, procedência ou dosagem correta.
“O processo de produção é ilegal e não validado. A pessoa não sabe exatamente o que está aplicando no próprio corpo”, alerta Marcos. Ele explica que materiais contaminantes, metais pesados ou substâncias inadequadas podem provocar intoxicações severas, principalmente no fígado e nos rins, órgãos responsáveis por filtrar toxinas do organismo.
O cardiologista compara o risco à falta de higiene em um restaurante. “Se a gente já estranha quando alguém manipula comida sem os cuidados adequados, imagine injetar na pele uma substância produzida sem qualquer fiscalização”, exemplifica.
Embora muitos pacientes temam complicações cardíacas, Barojas ressalta que os efeitos cardiovasculares dependem da composição real do produto ilegal. “Como ninguém sabe exatamente o que existe ali dentro, qualquer coisa pode acontecer. Pode não acontecer nada, mas também pode provocar complicações graves”, afirma.
Emagrecimento rápido pode custar caro
Além do risco infeccioso e tóxico, especialistas alertam para os impactos nutricionais do uso inadequado dessas medicações. A nutricionista Beatriz Nogueira explica que muitas pessoas utilizam as canetas sem qualquer orientação profissional e acabam reduzindo drasticamente a alimentação.
“O organismo passa a funcionar com baixa oferta de energia e nutrientes. Isso pode causar perda excessiva de massa muscular, fraqueza, queda de cabelo, alterações metabólicas e prejuízos físicos e mentais”, afirma.
Segundo ela, estudos indicam que, em casos sem acompanhamento adequado, até 40% do peso perdido pode ser composto por massa magra. Esse quadro pode levar à sarcopenia, condição caracterizada pela perda importante de músculos e força física.
A nutricionista destaca que o emagrecimento obtido dessa forma costuma ter baixa qualidade metabólica. “A pessoa até perde peso, mas perde músculo junto. Isso favorece o efeito sanfona e o reganho de peso no futuro”, explica.
Uso correto exige acompanhamento médico
Apesar dos alertas, os especialistas ressaltam que medicamentos regularizados podem trazer benefícios importantes quando utilizados corretamente e sob supervisão médica. Marcos Barojas lembra que substâncias como a semaglutida possuem evidências científicas robustas para determinados grupos de pacientes.
“Existem benefícios cardiovasculares comprovados em pessoas com obesidade, diabetes, insuficiência cardíaca e até doença renal”, explica o cardiologista. Segundo ele, nesses casos, o medicamento é indicado após avaliação clínica detalhada, análise de contraindicações e acompanhamento contínuo.
O problema começa quando pacientes passam a utilizar as canetas apenas por influência das redes sociais ou em busca de resultados rápidos. “É ingênuo acreditar que uma pessoa leiga vai saber se pode ou não usar esse tipo de medicamento”, alerta.
Ele também destaca que existem contraindicações específicas que muitas vezes nem mesmo são facilmente identificadas sem avaliação médica. “É um medicamento que exige critério técnico, monitoramento e responsabilidade”, reforça.
Mudança de hábitos
Para a nutricionista Beatriz Nogueira, o tratamento da obesidade e do excesso de peso precisa ir além da medicação. Ela explica que as canetas não substituem hábitos saudáveis e que o processo de emagrecimento sustentável depende de mudanças no estilo de vida.
Entre as orientações mais importantes estão a organização alimentar, o consumo adequado de proteínas, a ingestão de fibras e a prática regular de atividade física, especialmente exercícios de força para preservar a massa muscular.
“A construção de hábitos consistentes é o que garante manutenção de resultados e melhora da saúde a longo prazo”, afirma.
Ela também destaca a importância do acompanhamento individualizado. “Cada pessoa possui necessidades específicas. O papel do nutricionista e do médico é justamente adaptar o tratamento à realidade de cada paciente, respeitando rotina, limitações e objetivos”, explica.
Alerta contra o “atalho perigoso”
A popularização das canetas emagrecedoras transformou o assunto em tendência nas redes sociais, impulsionando uma busca crescente por soluções rápidas para perda de peso. No entanto, especialistas alertam que o chamado “atalho do emagrecimento” pode esconder riscos sérios à saúde.
“O barato pode sair muito caro”, resume Marcos Barojas. Segundo ele, além das infecções e intoxicações, o uso inadequado pode desencadear desnutrição, perda muscular severa e complicações clínicas difíceis de reverter.
Diante do avanço da comercialização irregular, a recomendação dos profissionais é clara: desconfiar de produtos vendidos fora das farmácias autorizadas, evitar compras pela internet sem procedência e nunca iniciar o uso de medicamentos sem orientação médica e nutricional.
Mais do que estética, o debate sobre as canetas emagrecedoras envolve segurança, saúde pública e responsabilidade. Em um cenário marcado pela pressão estética e pela promessa de resultados rápidos, especialistas reforçam que não existe solução milagrosa para o emagrecimento saudável.
Tribuna / Foto: Divulgação


