No entanto, muitos casos não chegam a se tornar públicos
Por Livia Veiga
Um estudo divulgado nesta quinta-feira (4) mostra que ameaças como as sofridas pela personagem interpretada pela atriz Giovanna Lancellotti, na novela da Rede Globo, Dona de Mim, não são apenas enredo de ficção. De acordo com a Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo DataSenado e pela Nexus, em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência do Senado Federal, 8,8 milhões de brasileiras sofreram algum tipo de violência digital nos últimos 12 meses.
Esse montante corresponde a 10% da população feminina de 16 anos ou mais no país. Em sua 11ª edição, o levantamento amplia o monitoramento de agressões mediadas por tecnologia, incluindo desde mensagens ofensivas recorrentes até invasões de contas e uso de imagens íntimas para chantagem.
“A inclusão da violência digital na Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, feita pelo DataSenado e pela Nexus, representa um passo decisivo para compreender novas formas de agressão que se tornaram parte do cotidiano das brasileiras. Pela primeira vez, a pesquisa dimensiona esse cenário ao revelar que 8,8 milhões de mulheres foram vítimas no último ano, ampliando o alcance da série histórica e evidenciando como práticas mediadas por tecnologia reproduzem e intensificam a violência de gênero”, afirma Maria Teresa Prado, coordenadora do Observatório da Mulher contra a Violência no Senado Federal.
Segundo o estudo, a agressão mais relatada por essas mulheres nos últimos 12 meses foi o envio de mensagens ofensivas e ameaçadoras de forma recorrente, realidade para 5% da população, cerca de 4,8 milhões de mulheres. Em seguida aparecem invasão de contas e dispositivos pessoais (4%) e espalhar mentiras sobre a vítima em redes sociais (4%), compondo um cenário de assédio que se espalha pelos principais ambientes digitais utilizados pelas brasileiras.
No último dia 28, a Polícia Civil da Bahia prendeu, em Salvador, um homem, de 47 anos, acusado de tortura e ameaça contra ex-companheira. Segundo a polícia, a vítima, de 32 anos, chegou a mudar-se para Juazeiro para fugir das agressões, mas continuou recebendo mensagens intimidatórias por aplicativo, nas quais o autor afirmava saber seu novo endereço.
No entanto, muitos casos não chegam a se tornar públicos. Um exemplo é o relatado por uma estudante universitária baiana, de 22 anos, que preferiu não se identificar: “Tudo começou com curtidas e elogios em minhas fotos no Instagram, mas depois comecei a receber mensagens estranhas, de um perfil fake, de um homem que dizia estar apaixonado e isso me deixou apavorada”. A jovem conta que bloqueou o perfil e que cogitou abandonar as redes sociais.
Ainda de acordo com a Nexus, foi registrado aumento significativo no uso de fotos ou vídeos íntimos com objetivo de chantagear a vítima: passou de 1% para 2%, na comparação entre essa edição da pesquisa e a edição anterior, de 2023. “Embora pareça um percentual pequeno, ele representa mais de 1,4 milhão de brasileiras expostas a um tipo de coerção que combina violência psicológica, sexual e tecnológica”, analisa a empresa.
Conforme os dados divulgados ontem, no geral, mulheres mais novas, de 16 a 29 anos, tendem a vivenciar mais tipos de violências digitais do que mulheres mais velhas: o recebimento de mensagens ofensivas e ameaçadoras de forma recorrente, por exemplo, que atinge 5% das brasileiras, chega a 9% nessa faixa etária. Ao todo, 15% das brasileiras mais jovens afirmaram terem sofrido algum tipo de violência digital nos últimos 12 meses, contra 10% da média brasileira.
Além disso, a pesquisa também traça um perfil dos agressores. “Os dados mostram a violência digital que ocorre com parceiros íntimos, familiares ou pessoas próximas. Essa dinâmica reforça que a tecnologia, em vez de criar um novo agressor, amplia o alcance de violências já existentes”, destaca a coordenadora do Observatório da Mulher contra a Violência do Senado Federal.
Ainda de acordo com Prado, ao trazer esse tema, a pesquisa oferece evidências que orientam políticas públicas mais eficazes, ao identificar as práticas mais recorrentes, os grupos mais afetados e a relação dessas agressões com outras violências. “Esses resultados são essenciais para ajustar protocolos, aprimorar normas, orientar plataformas digitais e fortalecer ações de prevenção e denúncia. O acompanhamento contínuo dessas práticas assegura que o Estado atue com informação qualificada e capacidade de resposta diante do crescimento da violência digital no país”, afirma.
Tribuna / Foto: Divulgação / Ascom


