Por todos os lados, marcas do tempo denunciam um cenário de tragédia eminente
Por Livia Veiga
Quem esteve em Monte Serrat, na tarde desta quinta-feira (13), em busca das bençãos o Bom Jesus dos Navegantes, se deparou com um aviso de interdição na porta da Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem. O altar que abriga a imagem tradicionalmente venerada por milhares de fiéis durante procissão do dia 1º de janeiro, estava isolado, por risco de desabamento.
Uma semana após o desabamento do forro do teto da Igreja de São Francisco, no Pelourinho, que deixou uma turista morta e outras cinco pessoas feridas, o tempo religioso da Cidade Baixa também foi interditado pela Defesa Civil de Salvador (Codesal). Técnicos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) realizaram duas vistorias no local, identificaram riscos na estrutura da edificação histórica, recomendando o fechamento do templo religioso.
Por todos os lados, marcas do tempo denunciam um cenário de tragédia eminente. No segundo pavimento, o teto expunha o risco: vãos inteiros com telhas deterioradas, suportadas por toras de madeira apodrecida e escoradas de forma improvisada.
Há dois anos, parte do telhado ruiu, provocando alagamento e comprometendo o piso de madeira e as paredes, que ostentam marcas da humidade, como infiltrações. Outros cômodos trazem rachaduras por toda a estrutura de concreto, que segundo Edivaldo Teixeira, coordenador de patrimônio da paróquia, são frutos da ação do tempo e da pesca com bomba que atormenta toda a região.
“Nós estamos em processo de reforma há alguns anos. O projeto foi enviado e aprovado pelo Iphan. Nós sabemos já empresa, já sabemos valores e o que está faltando, segundo o Iphan, é o governo federal bater o altero, autorizar a ordem de serviço. A gente está aguardando há, pelo menos, cinco ano. Enquanto isso, o patrimônio vai se deteriorando cada vez mais”, lamenta.
O paroquiano teme a chegada do período chuvoso e mostra, desolado, as condições estruturais da igreja que faz parte de sua história de vida e de toda a comunidade da Cidade Baixa. Ele conta que o telhado, que desabou em um temporal há 10 anos, é o ponto de maior risco, uma vez que apresenta destelhamento e danos em telhas e vigas de madeira.
Teixeira conta ainda que, há cinco anos, o Iphan recomendou a suspensão do badalar dos sinos, pelo risco de desabamento de parte da estrutura, o que já foi, segundo ele, registrado no local. Agora, com a interdição, todas as atividades estão suspensas, inclusive, as missas.
Enquanto não começam as obras, a paróquia encontrou uma solução provisória para manter a programação religiosa, em um espaço que comporta apenas 40% da quantidade de pessoas que costumam participar das celebrações realizadas aos domingos, por exemplo. “Por enquanto, usaremos o Salão Hugo Rossini para nossas celebrações. Sigamos com nossa vida paroquial e com nossas atividades já planejadas”, informou o padre Marcos Antônio, através das redes sociais.
Neste cenário, o paroquiando Edivaldo Teixeira teme a evasão dos fiéis, que podem acabar optando por outras paróquias do entorno, por falta de espaço físico. Ele teme também que após a tragédia ocorrida no Centro Histórico, as obras sejam realizadas primeiro na Igreja de São Francisco de Assis, onde há dois anos foram realizadas intervenções de restauro.
A interdição da Boa Viagem foi confirmada pela Arquidiocese de São Salvador da Bahia, que não se pronunciou sobre as medidas que serão adotadas a partir de agora, uma vez que a estrutura demanda restauro emergencial. Em nota, o Iphan firmou que uma força-tarefa foi montada na Superintendência da Bahia por 15 servidores do órgão, destacando que “têm sido intensificadas vistorias em todo o Centro Histórico de Salvador em parceria com a Defesa Civil do município (Codesal), inclusive em igrejas”.
Ainda de acordo com o instituto, durante as vistorias, os técnicos dos dois órgãos avaliam os riscos, e a Codesal faz recomendações de interdição à Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano (Sedur). “Além disso, o grupo de trabalho também está dando suporte à instrução processual e seleção da empresa que realizará as obras emergenciais no teto da Igreja de São Francisco de Assis, assim como no auxílio nas decisões a serem tomadas quanto ao restante do complexo da Igreja e do Convento. Com relação às igrejas Nossa Senhora de Boa Viagem, Igreja da Ordem Terceira do Carmo, Nossa Senhora D’Ajuda e Igreja dos Perdões, houve recomendação de interdição por parte do órgão municipal. A confirmação da interdição deve ser feita junto aos órgãos competentes”, pontuou o Iphan.
A reportagem entrou em contato com a Codesal, para saber se outras três igrejas citadas foram interditadas. A resposta é que “estão sendo vistoriados pela Codesal não apenas igrejas, mas imóveis na poligonal de tombamento do Iphan” e o órgão municipal ainda não dispõe de dados, “pois as análises só serão fechadas após ser concluída esta etapa de vistorias”.
Preservação do patrimônio e de vidas
Para Maria de Lurdes, baiana de acarajé que trabalha há anos em frente à Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem, a interdição veio em boa hora. “É bom isso acontecer, evitando um acidente. O teto dessa igreja aí também estava desabando. Foi bom. Antes de acontecer o fechamento do que uma tragédia também”, afirma.
Conforme Carlene Leitão, vice coordenadora paroquial, os fiéis nutrem a esperança de que a situação seja resolvida e, em dezembro do ano passado, foi emitido um informe de que estaria tudo certo para reforma. “Aí, a gente naquela expectativa. Foi uma grande emoção e até hoje nada. Na verdade, é necessário acontecer algo para que os órgãos responsáveis venham tomar uma providência, ver o que pode ser feito ou, até mesmo, interditar, como aconteceu”, relata.
Apontando rachaduras na fachada da igreja, Leitão destaca a necessidade urgente de que as obras sejam iniciadas, em prol da preservação do patrimônio e da vida dos paroquianos e turistas que visitam o templo. “A nossa preocupação maior é essa, é a vida dos paroquianos”, reforça.
A construção da igreja foi iniciada pela ordem franciscana em 1712 e o seu tombamento ocorreu em 1985. Como padroeira da igreja foi escolhida Nossa Senhora da Boa Viagem e nas paredes, azulejos portugueses vindos de Lisboa foram colocados em gratidão pelas travessias marítimas bem-sucedidas.
A estrutura abriga ainda, em suas dependências, a galeota “Gratidão do Povo”, que conduz as imagens do Senhor Bom Jesus dos Navegantes e de Nossa Senhora da Boa Viagem durante a tradicional procissão de 1º de janeiro. Do altar da igreja interditada, o Bom Jesus permanece, a sustentar a estrutura e a fé dos devotos que esperam voltar, em breve, a venerá-lo na igreja matriz.
Tribuna/Foto: Divulgação/Reprodução


