Especialista acredita que a combinação desses fatores cria um cenário de inflação persistente e desafios econômicos significativos
Por Henrique Brinco
O consultor econômico da Fecomércio-BA, Guilherme Dietze, analisou, ontem (3), em entrevista à Tribuna, o impacto do atual ciclo de alta da taxa Selic e da elevação do dólar sobre a economia brasileira. Para ele, a combinação desses fatores cria um cenário de inflação persistente e desafios econômicos significativos, que deverão marcar o próximo ano.
“Esse assunto está dominando o momento de aumento do dólar e semana que vem nós temos a reunião do Copom, que deve aumentar mais de meio ponto percentual a taxa de juros. Esse ciclo de aumento de juros está ligado à questão da nossa inflação, subindo a 4,7% nos 12 meses, passando do 4,5% que é o teto estabelecido pelo Conselho Monetário Nacional”, afirmou.
Dietze destacou ainda os principais fatores que têm pressionado os preços: “Nós tivemos a pressão da energia elétrica, vai baixar agora por conta da volta da bandeira tarifária verde, mas temos as carnes. E as carnes pressionando os alimentos e bebidas, que vai impactar certamente a inflação nos próximos meses.”
A alta do dólar também foi apontada como um elemento central na pressão inflacionária. Dietze explica que o câmbio elevado não resulta apenas de fatores externos, mas também de questões internas, como o descontrole das contas públicas e a falta de equilíbrio fiscal.
“Diante desse cenário, o Banco Central já vem num ciclo de expansão de juros. Agora, tem esse adicional, que é a questão do câmbio. Não é somente um fator doméstico, evidentemente há um fator externo. Da eleição do Trump, uma busca das moedas internacionais pelo dólar americano. Isso desvaloriza o nosso real, mas nós temos o componente interno, que é a questão da falta de um equilíbrio das contas públicas e falta de um norte de controle da dívida pública”, disse.
Segundo o especialista, o impacto do dólar desvalorizado é sentido diretamente nos preços ao consumidor, uma vez que produtos importados e insumos utilizados na produção nacional tornam-se mais caros. “Esse dólar mais elevado vai pressionar ainda mais a inflação, porque nós estamos falando de importação de produtos mais caros que vai chegar ao consumidor. Temos produtos internos como soja, milho, produzimos aqui, mas tem importação no exterior. Temos o trigo importado da Argentina, que impacta certamente o consumidor.”
Apesar de dados econômicos positivos a curto prazo, Dietze alerta que os efeitos da política monetária atual devem trazer um cenário desafiador no médio e longo prazo.
“Quer dizer, já estava um cenário ruim para os preços e agora tende a piorar um pouquinho mais. Então a gente vê uma cautela, sobretudo para o segundo semestre do ano que vem, porque o efeito de juros não é no curto prazo, ele é visto mais no médio e longo prazo. A gente ainda vai ver uma conjuntura econômica ainda favorável, como saiu o dado do PIB, a gente não muda uma trajetória do PIB da noite para o dia, então a gente vai ver uma consequência positiva ao longo do primeiro semestre do ano que vem, mas depois já com o freio por conta do aumento de juros e a questão da inflação ainda apertando”.
“Será um ano desafiador para economia, com esses juros elevados, o dólar continuará pressionando. Os preços também não estão contribuindo, pressionando juros elevados”, previu.
Tribuna/Foto: Valter Campanato/Agência Brasil


