Mesmo com vacina e exames disponíveis no SUS, baixa cobertura de prevenção mantém doença entre as mais incidentes entre mulheres baianas
Por Rayllanna Lima
O câncer do colo do útero segue como um dos principais desafios de saúde pública na Bahia, combinando alta incidência com diagnóstico tardio. De acordo com o estudo mais recente do Instituto Nacional do Câncer (INCA), o estado deve registrar 1.370 novos casos da doença ao longo do ano, o maior volume da região Nordeste.
O cenário também se reflete na rede pública de saúde. Dados do Painel-Oncologia do DataSUS, compilados pela Organização Nacional de Acreditação (ONA) indicam que a Bahia registrou 682 casos em 2025 e 1.081 em 2024. Em 2026, até 15 de março, já foram 30 diagnósticos no território baiano.
A persistência de números elevados está diretamente associada a um problema estrutural de baixa cobertura de prevenção. Embora seja um câncer altamente evitável, o diagnóstico ainda ocorre, em muitos casos, em estágios avançados, o que reduz as chances de cura e aumenta a complexidade do tratamento.
O exame preventivo, conhecido como Papanicolau, é a principal ferramenta de rastreamento da doença e permite identificar lesões antes que evoluam para câncer. Mesmo assim, a cobertura ainda está abaixo do necessário. A oncologista Luciana Landeiro, da Oncoclínicas, destaca que o rastreamento é fundamental para ampliar as chances de tratamento precoce.
“O exame de rastreamento ajuda a detectar a doença mesmo quando a mulher não tem nenhum sintoma, aumentando a possibilidade de tratamentos menos invasivos e salvando vidas”, explica a especialista. Quando diagnosticado precocemente, o câncer do colo do útero apresenta altas taxas de cura, podendo ultrapassar 95%.
A ginecologista Liani Patrícia Andrade, do Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (Caism), afirma que o exame é decisivo para interromper a progressão da doença ainda em fase inicial. “O Papanicolau é um grande aliado na detecção precoce de lesões precursoras do câncer de colo de útero causadas pelo HPV. Na maioria das vezes, o câncer de colo de útero é silencioso e, por isso, os exames preventivos são importantes para o diagnóstico precoce, facilitando o tratamento”, disse.
Na fase inicial, o câncer do colo do útero geralmente não apresenta sintomas, o que dificulta a identificação precoce. Quando os sinais aparecem, costumam indicar estágios mais avançados. Entre os principais sintomas estão sangramento vaginal fora do período menstrual, dor durante a relação sexual, corrimento com odor e dor pélvica persistente. Diante de qualquer alteração, a orientação é buscar avaliação médica.
O principal fator de risco para o desenvolvimento da doença é a infecção persistente pelo Papilomavírus Humano (HPV), responsável por mais de 99% dos casos. O oncologista Daniel Brito, da Oncoclínicas, explica que alguns subtipos do vírus apresentam maior risco de evolução para câncer. “Existem mais de 200 subtipos de HPV, os tipos HPV-16 e HPV-18 são considerados de alto risco por seu potencial oncogênico”, destaca. A transmissão ocorre principalmente por contato sexual, e fatores como múltiplos parceiros, início precoce da vida sexual e ausência de acompanhamento ginecológico regular aumentam o risco.
Vacinação ainda enfrenta barreiras de adesão
A vacina contra o HPV, disponível gratuitamente no SUS, é uma das principais estratégias de prevenção, mas ainda enfrenta desafios relacionados à adesão. A imunização é indicada para crianças e adolescentes antes do início da vida sexual e atua diretamente na redução da circulação do vírus, impactando os índices da doença ao longo do tempo. Ainda assim, a desinformação e o medo em relação à vacina continuam sendo obstáculos para ampliar a cobertura.
A incorporação do teste molecular de DNA-HPV representa um avanço importante no enfrentamento da doença. A tecnologia permite identificar a presença do vírus de alto risco antes do surgimento de lesões, ampliando as possibilidades de prevenção. Biomédico do Conselho Federal de Biomedicina, Marco Antonio Zonta relata sobre o impacto do novo modelo de rastreamento. “O rastreamento identifica a presença do HPV de alto risco oncogênico antes de qualquer alteração celular aparecer”, afirma.
Tribuna/Foto: Divulgação/Reprodução


