No mesmo período de 2024, foram 13.692 nascimentos de filhos de mães com idades entre 15 e 19 anos no estado
Por Hieros Vasconcelos
A Bahia registrou 12.681 nascimentos de bebês filhos de mães adolescentes entre janeiro e agosto de 2025, segundo dados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc), do Ministério da Saúde. O número, compilado em janeiro deste ano pela Organização Nacional de Acreditação (ONA), expõe a dimensão de um fenômeno que segue como um dos principais desafios sociais e de saúde pública do país.
No mesmo período de 2024, foram 13.692 nascimentos de filhos de mães com idades entre 15 e 19 anos no estado. Apesar da leve redução, especialistas avaliam que os índices ainda permanecem elevados e mantêm a Bahia entre os estados com maior volume absoluto de gravidez na adolescência no Brasil, cenário diretamente ligado à densidade populacional e às desigualdades sociais persistentes na região Nordeste.
Em âmbito nacional, entre janeiro e agosto de 2025, o Brasil registrou 168.713 nascimentos de bebês de mães adolescentes. No mesmo intervalo de 2024, foram 179.428, totalizando 261.206 ao final do ano. Embora os números indiquem tendência gradual de queda, ainda estão distantes dos patamares considerados ideais por organismos internacionais de saúde.
A divulgação coincide com a Semana Nacional de Prevenção da Gravidez na Adolescência, realizada anualmente entre 1º e 8 de fevereiro, período dedicado à conscientização sobre educação sexual, planejamento reprodutivo e direitos de adolescentes e jovens.
A gravidez na adolescência no Brasil e na Bahia apresenta forte relação com fatores socioeconômicos. A maior incidência está concentrada em áreas de baixa renda e entre jovens com menor escolaridade, acesso limitado à informação e dificuldades de acompanhamento regular nos serviços de saúde.
Dados do Ministério da Saúde apontam que a maioria das adolescentes que engravidam vive em contextos de vulnerabilidade social. Muitas interrompem os estudos durante a gestação ou logo após o nascimento do bebê, o que reduz significativamente as possibilidades de inserção no mercado de trabalho e perpetua ciclos de pobreza e dependência financeira.
Especialistas alertam ainda para a gravidade dos casos envolvendo meninas entre 10 e 14 anos. Embora representem percentual menor do total de nascimentos, essas gestações frequentemente estão associadas a situações de violência sexual e abuso intrafamiliar, sendo consideradas de alta complexidade social e de saúde.
A maternidade precoce altera de forma profunda o projeto de vida das adolescentes. Em uma fase marcada pela construção da identidade e dos planos de futuro, a chegada de um filho impõe responsabilidades que muitas vezes interrompem sonhos e limitam oportunidades.
Impactos na saúde e no desenvolvimento
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a gestação na adolescência está associada a maior risco de complicações para mãe e bebê. Entre as jovens, aumentam as chances de mortalidade materna, anemia, hipertensão gestacional, parto prematuro e depressão pós-parto.
Para os recém-nascidos, os riscos incluem baixo peso ao nascer, anomalias congênitas, asfixia e complicações neurológicas. A pediatra e membro da Organização Nacional de Acreditação (ONA), Mariana Grigoletto, explica que o organismo adolescente ainda está em fase de desenvolvimento, o que amplia a vulnerabilidade a intercorrências clínicas.
“Entre adolescentes, há maior risco de mortalidade materna e de complicações para o bebê, como prematuridade e anomalias. Além dos impactos físicos, a gravidez nessa fase pode comprometer a trajetória educacional das jovens, dificultando a inserção no mercado de trabalho e refletindo diretamente nas condições socioeconômicas dessas famílias”, afirma.
A especialista ressalta que a gravidez precoce também se relaciona a fatores como ausência de rede de apoio, falta de corresponsabilização do parceiro, interrupção da amamentação, uso de álcool e outras drogas e situações de violência doméstica.
Os impactos da maternidade na adolescência vão além das questões físicas e econômicas. A saúde mental das jovens mães também sofre forte impacto. Sentimentos de medo, insegurança, ansiedade e sobrecarga emocional são frequentes, especialmente quando há rejeição familiar ou ausência de apoio do parceiro.
O Sistema Único de Saúde (SUS) assegura assistência psicológica às gestantes, parturientes e puérperas, conforme previsto na legislação. O acompanhamento pode ocorrer desde o pré-natal, mediante avaliação dos profissionais de saúde.
“Durante a gestação e após o nascimento do bebê, é natural que surjam emoções como ansiedade ou tristeza. Por isso, o cuidado com a saúde mental é fundamental. A legislação garante acesso à assistência psicológica no SUS, com acompanhamento adequado às necessidades de cada mulher”, explica Mariana Grigoletto.
O suporte emocional e social é apontado como elemento decisivo para reduzir riscos de depressão pós-parto e fortalecer o vínculo entre mãe e bebê, contribuindo para o desenvolvimento saudável da criança.
Educação sexual e direitos dos adolescentes
O debate sobre gravidez na adolescência passa necessariamente pela educação sexual e pelo acesso a informações seguras. Profissionais de saúde defendem a criação de espaços de escuta e orientação qualificada, com respeito ao sigilo e à autonomia dos jovens.
O atendimento individual ao adolescente em consultas médicas é permitido e recomendado, desde que não represente risco à sua vida, garantindo que o jovem se sinta seguro para esclarecer dúvidas sobre sexualidade e prevenção.
“O respeito ao sigilo profissional é essencial para que o adolescente fale abertamente sobre suas dúvidas e medos. Informação e acolhimento são ferramentas fundamentais na prevenção da gravidez não planejada”, reforça a pediatra.
Prevenção e corresponsabilidade
Outro ponto central é a necessidade de envolver também os meninos na responsabilidade pela prevenção da gravidez e das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Ainda hoje, a maior parte dessa responsabilidade recai sobre as meninas.
“A gravidez acontece dentro de uma relação. Embora as adolescentes enfrentem grande parte das consequências, é indispensável incluir os meninos nessa conversa e discutir seu papel e responsabilidade”, afirma a médica.
Entre os métodos mais eficazes está a chamada dupla proteção, que combina preservativos com métodos contraceptivos reversíveis de longa duração, como DIU e implantes subdérmicos. Esses métodos apresentam alta eficácia e não dependem de uso diário, podendo durar de três a dez anos.
Desafio social persistente
Apesar de avanços nas políticas públicas e na ampliação do acesso a métodos contraceptivos, a gravidez na adolescência permanece como um desafio estrutural no Brasil. Especialistas defendem ações integradas nas áreas de educação, saúde e assistência social para reduzir de forma consistente os índices.
Na Bahia, o volume de nascimentos de filhos de mães adolescentes reforça a necessidade de políticas permanentes de prevenção, acolhimento e acompanhamento. Mais do que uma questão de saúde pública, o fenômeno reflete desigualdades sociais profundas e exige respostas que envolvam toda a sociedade.
Tribuna / Foto: Romildo de Jesus/Tribuna da Bahia


