As metas de cobertura para o calendário infantil são de 90% para as vacinas BCG e rotavírus, além de 95% de cobertura para os demais imunizantes
Por Livia Veiga
A Bahia ainda não atingiu as metas de cobertura vacinal definidas pelo Programa Nacional de Imunizações e pela Organização Mundial da Saúde (OMS), cenário que preocupa autoridades sanitárias e especialistas, especialmente às vésperas do Carnaval. O cenário também se reflete em âmbito nacional: dados citados pela Agência Brasil apontam que, em 2025, de cada 10 doses distribuídas pelo Ministério da Saúde a estados e municípios, menos de quatro foram utilizadas.
De acordo com a coordenadora de Imunizações e Vigilância Epidemiológica de Doenças Imunopreveníveis da Secretaria da Saúde do Estado (Sesab), Vânia Rebouças, a dificuldade de alcançar as metas é evidente no calendário vacinal dos públicos infantil, idosos e gestantes. Segundo ela, coberturas elevadas e homogêneas no território estadual são essenciais para manter o risco reduzido de ressurgimento de doenças imunopreveníveis. Rebouças destacou que, apesar de um movimento de recuperação, o estado ainda não chegou ao patamar esperado. “Apesar de estamos em uma tendência de crescimento nas coberturas vacinais, ainda não conseguimos atingir as metas preconizadas para essas vacinas do calendário infantil”, afirmou.
As metas de cobertura para o calendário infantil são de 90% para as vacinas BCG e rotavírus, além de 95% de cobertura para os demais imunizantes. E, entre as preocupações do poder público, Vânia Rebouças mencionou a possibilidade de reintrodução de doenças já erradicadas: “inclusive, a poliomielite, que já foi eliminada do país há mais de três décadas, apresenta o risco de ser reintroduzida no nosso país devido às atuais coberturas vacinais, que estão abaixo das metas preconizadas”.
A Sesab defende que a atualização da caderneta seja uma rotina permanente. “A caderneta de vacina tem que estar sempre atualizada, de janeiro a janeiro, não somente nas campanhas, mas também nas ações de rotina. O público-alvo elegível deve sempre comparecer para ter acesso ao imunizante, a fim de evitar adoecimento e casos graves de doenças”, completou a coordenadora de Imunizações e Vigilância Epidemiológica de Doenças Imunopreveníveis.
Além do calendário infantil, Rebouças citou vacinas voltadas a adolescentes, que estão disponíveis: Papilomavírus Humano (HPV), para a população de 9 a 19 anos, importante para evitar infecções pelo HPV e casos de câncer a longo prazo (como o de colo de útero, pênis); e a Meningocócica ACWY, para público de 11 a 14 anos, disponível nas unidades de saúde (cuja meta preconizada ainda não foi atingida).
“A vacinação é extremamente importante para redução do risco de transmissão de doenças e para a redução de casos graves e óbitos. Com relação à Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), por exemplo, nós temos vacinas disponíveis na rede pública de saúde, que previnem contra Covid-19, Influenza e o Vírus Sincicial Respiratório (VSR). Para cada uma dessas vacinas, temos públicos-alvo específicos e é importante garantir a proteção com a atualização das cadernetas de vacinação. Por isso, devemos dar ênfase à necessidade de elevadas coberturas vacinais, principalmente, nos extremos de idade, que além de serem grupos vulneráveis e muito susceptíveis, dependem dos seus responsáveis para terem acesso à vacinação”, reforçou a representante da pasta estadual.
Graves consequências
Dados mencionados pela Agência Brasil, com base na plataforma Infogripe, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), apontam ainda consequências da baixa cobertura, em âmbito nacional. Em 2025, pelo menos 10.410 pessoas adoeceram com gravidade após infecção pelo coronavírus, com cerca de 1,7 mil mortes, considerando apenas casos confirmados por teste laboratorial. O infectologista Victor Castro Lima, coordenador do serviço de infectologia do Hospital Mater Dei Salvador, ressaltou que as vacinas são uma estratégia de prevenção capaz de erradicar doenças e controlar outras ao longo do tempo.
Segundo ele, “quando a gente fala em se vacinar, significa tanto a proteção individual quanto a proteção comunitária”. O especialista reforçou que manter a carteira em dia ajuda a proteger contra doenças “imunopreveníveis” e que podem ter aumento de casos em determinadas épocas do ano. Entre os exemplos, Lima citou a vacinação anual contra gripe e a atualização da vacina da Covid conforme o perfil do paciente, além da tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola.
O médico também relacionou cidades turísticas e grandes eventos ao risco de circulação de agentes infecciosos. “Quando a gente fala em uma cidade que acaba recebendo muitos turistas, nós estamos falando da circulação de doenças infectocontagiosas”, afirmou, citando o caso da influenza, que tem alta capacidade de mutação e pode favorecer a transmissão. Ao comentar o cenário de baixa cobertura, o infectologista apontou sinais de reaparecimento de doenças antes controladas.
“Com a baixa taxa de cobertura vacinal que nós estamos infelizmente observando nos últimos anos, nós já vemos o aparecimento em alguns lugares do mundo, inclusive no Brasil, de algumas doenças que não necessariamente erradicadas, mas pelo menos controladas”, disse. Victor Castro Lima recomendou que a vacinação seja feita com orientação de profissionais de saúde e que a carteira seja levada às consultas para avaliação.
O médico também destacou que a maioria das vacinas é ofertada gratuitamente no Sistema Único de Saúde (SUS), principalmente na atenção primária, e que, para públicos específicos, há centros de referência com imunobiológicos especiais. Conforme a coordenadora de Imunizações e Vigilância Epidemiológica de Doenças Imunopreveníveis da Sesab, o Estado, em parceria com as 417 secretarias municipais de saúde, vêm realizando ações extramuros nos seus territórios. Além disso, Vânia Rebouças, reforça a importância da comunicação para ampliar a adesão: “a informação segura é extremamente importante para a adesão da população, porque a população desinformada tem uma falsa sensação de segurança. A gente precisa garantir a priorização nas ações de vacinação, evitando a hesitação vacinal”.


