O setor articula estratégias para reduzir sazonalidade em 2026
Por Rayllanna Lima
Após registrar o melhor desempenho dos últimos 15 anos, a hotelaria de Salvador entra em 2026 com um diagnóstico preciso e um desafio claro: transformar picos de ocupação em crescimento mais equilibrado ao longo do ano. A avaliação foi apresentada pela Associação Brasileira da Indústria de Hotéis da Bahia (ABIH-BA), durante coletiva realizada nesta quarta-feira (14), no Hotel Fasano Salvador, quando foram divulgados os resultados de 2025 e as ações estratégicas previstas para este ano.
A ocupação média anual na capital baiana fechou em 66,51%, acima dos 64,15% registrados em 2024, consolidando o melhor resultado da série histórica iniciada há 15 anos. Para o presidente da ABIH-BA, Wilson Spagnol, o desempenho está diretamente ligado à articulação entre o setor privado e o poder público. “Foi um ano de união. A nossa gestão tem sido pautada pela união da hotelaria, das entidades e dos governos. A união gera projetos, e projetos mudam a realidade”, afirmou em entrevista à Tribuna da Bahia.
Os números revelam, contudo, que o crescimento não ocorreu de forma homogênea. As maiores altas foram registradas em janeiro, impulsionado pelo verão, e em outubro e novembro, meses que passaram a concentrar forte demanda do turismo de negócios, especialmente após a consolidação do Centro de Convenções Salvador.
Segundo o vice-presidente da entidade, Luciano Lopes, esse movimento é fruto de um trabalho de médio e longo prazo. “Os congressos não chegam de um ano para o outro. Eles levam quatro ou cinco anos para serem captados. Agora estamos vivendo esse tempo cheio, e isso se reflete diretamente na ocupação dos hotéis”, explicou.
Já dezembro apresentou um comportamento específico. Mesmo com a desaceleração do turismo corporativo, a entrada do verão e a antecipação de grandes eventos sustentaram a ocupação média em 66,94%. O polo Itapuã–Stella Maris liderou, com 76,62%, seguido pelas regiões da Barra e Ondina, áreas com forte vocação para o lazer e proximidade das praias, especialmente durante o Réveillon.
Na outra ponta do calendário, maio, junho e julho seguem como os meses mais críticos para o setor. Nesse período, a hotelaria enfrenta a retração do turismo de negócios e a migração do fluxo para o interior do estado durante os festejos juninos, o que acentua a sazonalidade.
Para a ABIH-BA, esse cenário exige estratégias permanentes. Um dos caminhos apontados é o fortalecimento do turismo religioso, ainda pouco explorado na capital. Maio, por exemplo, marca o aniversário de Santa Dulce dos Pobres, data considerada estratégica para atrair visitantes de todo o país.
“Salvador tem potenciais enormes que ainda não são totalmente explorados. O turismo religioso é um deles e precisa ser trabalhado de forma estruturada”, avaliou a diretora de Relações Institucionais, Renata Proserpio, ao defender campanhas e ações promocionais específicas para o segmento.
Estratégias para 2026
Além do diagnóstico da sazonalidade, a ABIH-BA anunciou a criação de uma feira inédita de turismo e hotelaria em Salvador, prevista para junho, considerada estratégica por ocorrer fora da alta temporada. Segundo Spagnol, a iniciativa corrige uma lacuna histórica da capital. “Salvador ficou anos sem sediar uma feira estruturada do setor, apesar de sua relevância turística. A proposta é criar uma plataforma de negócios, capacitação e promoção do destino”, destacou.
A agenda inclui ainda a criação de um festival de turismo no Vale do São Francisco, programado para setembro, ampliando a atuação da entidade para além da capital e reforçando a estratégia de interiorização do turismo.
No mercado de trabalho, o setor manteve desempenho positivo. Entre janeiro e novembro de 2025, o turismo incorporou 1.633 novos postos formais em Salvador, superando o saldo registrado em todo o ano anterior. Ainda assim, a dificuldade de contratação e qualificação segue como desafio.
“Somos um dos setores que mais empregam, mas vivemos um ambiente adverso. Mesmo assim, a hotelaria investe, forma e qualifica”, afirmou Spagnol, citando a criação de uma academia voltada à capacitação profissional.
A conectividade aérea permanece como eixo central da estratégia. O crescimento de 27,8% no número de passageiros internacionais em 2025 foi celebrado, especialmente com a retomada do voo direto para o Panamá,
operado pela Copa Airlines. “O acesso ao Panamá nos conecta a um hub global”, ressaltou o presidente da ABIH-BA. Ao mesmo tempo, a entidade voltou a criticar a fragilidade da malha regional no Norte e Nordeste, apontando impactos diretos na competitividade do setor.
Outro ponto sensível é a concorrência com plataformas de aluguel por temporada, classificada como desleal. “Não somos contra a inovação, mas defendemos isonomia. Hotéis são regulados, geram empregos formais e pagam impostos. É preciso que todos sigam as mesmas regras”, afirmou Spagnol.
Tribuna/Foto: Divulgação


