Ex-presidente depôs ao STF e reconheceu ter debatido alternativas ao resultado eleitoral com comandantes das Forças Armadas
Por Mariana Muniz, Daniel Gullino, Ivan Martínez-Vargas e Eduardo Gonçalves, da Agência O Globo
O ex-presidente Jair Bolsonaro disse em depoimento ao Supremo Tribunal Federal (STF) ontem que tratou auxiliares a possibilidade de decretar Estado de Sítio após a vitória eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2022. Ele admitiu ter discutido com os então comandantes das Forças Armadas alternativas para questionar o resultado eleitoral. Segundo o ex-presidente, porém, as medidas foram descartadas e não havia “clima”, “oportunidade” e “base minimamente sólida para qualquer coisa”, em uma alusão à uma tentativa de golpe no país. Ao testemunhar no caso, os ex-chefes do Exército e da Aeronáutica descreveram esses debates de teor golpista, o que Bolsonaro negou.
“Golpe não são meia dúzia de pessoas, dois ou três generais e meia dúzia de coronéis. Vejam 64. Falar em golpe de estado ? O que aconteceu depois do meu governo (no 8 de janeiro), sem armas, sem núcleo financeiro, sem qualquer liderança, isso não é golpe”, disse Bolsonaro. “Da minha parte nunca se falou em golpe, é uma coisa abominável. É fácil começar, mas o ‘after day’ é que é simplesmente imprevisível”.
Bolsoanro é interrogado no STF pelo ministro Alexandre de Moraes, relator da ação penal em que é réu. Em outro momento do depoimento, o ex-presidente foi questionado pelo magistrado sobre as elaboração de uma minuta golpisa, mas afirmou que não teve acesso ao documento e negou que tenha discutido prisão de autoridades.
“Teve reunião que tratamos de GLO, porque os caminhoneiros estavam parando, tratamos sobre o que poderia acontecer com aquela multidão. Como falou o general Freire Gomes, nós estudos possibilidades, outras, dentro da Constituição”, afirmou Bolsonaro. “Discussão sobre esse assunto já começou sem força, de modo que nada foi à frente. A ideia que alguns levantavam seria o estado de sítio, por exemplo. Não procede o enxugamento”.
Segundo o ex-presidente, em uma reunião com comandantes das Forças Armadas, no Palácio da Alvorada, foi exibido um documento com considerações a respeito da situação do país.
“Foi passado na tela os considerandos de forma bastante rápida. Não havia da nossa parte uma gana, mesmo que nós encontrássemos algo na Constituição, o sentimento de todo mundo é que não tinha nada o que fazer, e nós precisámos entubar”, disse o ex-presidente.
Ele acrescentou que não teve acesso à minuta golpista citada pelo seu ex-ajudante de ordens Mauro Cid, que firmou um acordo de delação premiada com a Polícia Federal. Em seu depoimento, Cid disse que Bolsonaro fez ajustes no documento, que previa a prisão de Moraes.
“Falar contra autoridades, sugerir prisão, isso aí na nossa reunião não estava previsto isso. O que estava previsto, e repito à Vossa Excelência que eu gostaria de ter acesso ao documento para discuti-lo. Se eu não estou tendo acesso, não tenho como discutir. As conversas eram bastante informais, não era algo proposto aqui, vamos decidir. Nada disso aconteceu. Ver se existia alguma hipótese de algum dispositivo constitucional para ver se a gente atingia o objetivo que não tínhamos atingido no TSE, e isso foi descartado depois da primeira ou da segunda reunião”.
O interrogatório ocorre no âmbito da ação penal que avalia se Bolsonaro e outros sete réus, o chamado “núcleo crucial”, planejaram um golpe de Estado para impedir a posse do presidente Lula no fim de 2022. Eles são acusados dos crimes de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, organização criminosa, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado.
Tribuna / Foto: Inteligência Ltda. Podcast


