A cultura da violência que é perpetuada na sociedade, inclusive na mídia e na política, pode contribuir para a normalização da violência
Por Vinicius Viana
O número de ataques dentro de escolas com mortos e dezenas de feridos continua subindo no Brasil. O mais recente aconteceu ontem (5), quando um homem de 25 anos, armado com uma machadinha, matou quatro crianças na creche Cantinho Bom Pastor, em Blumenau, no Vale do Itajaí, em Santa Catarina. O suspeito de cometer o crime se entregou em seguida em um batalhão da Polícia Militar.
As vítimas do ataque estavam brincando no parquinho da creche quando foram surpreendidas pelo assassino. Elas foram identificadas como Bernardo Cunha Machado, cinco anos, Bernardo Pabest da Cunha, quatro, Enzo Marchesin Barbosa, quatro, e Larissa Maia Toldo, sete. As outras crianças feridas recebem atendimento médico no Hospital Santo Antônio.
De acordo com o Portal Nacional da Educação, onze ataques violentos dentro de unidades de ensino foram registrados em onze cidades no Brasil, somente este ano, conforme dados divulgados pelo mapeamento de violência em escolas e universidades. São Paulo é o estado que lidera o ranking com 3 ataques, seguido por Minas Gerais com 2, Mato Grosso do Sul (2), Rio Grande do Sul (1), Roraima (1), Paraná (1), Sergipe (1) e Santa Catarina (1). Ao todo foram 5 feridos e 4 mortos.
Apesar do estado da Bahia não aparecer no mapeamento de violência em escolas e universidades, o Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado da Bahia (APLB) afirma que 53 ocorrências envolvendo atos de violência foram registradas somente este ano entre unidades de ensino da capital baiana e do interior. Por meio de nota, o APLB lamentou mais episódios de ataques dentro das escolas brasileiras. “A violência nas escolas assombra o Brasil e deve ser combatida com o apoio de todos – poder público, família e comunidade escolar. Basta!”, declarou.
Em entrevista à Tribuna da Bahia, o professor e coordenador geral da APLB, Rui Oliveira, afirmou que o sindicato está lutando para que novas medidas de segurança sejam implantadas dentro das unidades de ensino da Bahia. “Nós queremos instalar catracas eletrônicas, detectores de metal, porteira eletrônica, câmeras de reconhecimento fácil nas portas das escolas municipais e estaduais para coibir a invasão de pessoas estranhas. [Hoje] qualquer marginal pode usar uma blusa azul ou branca e consegue ingressar em uma unidade escolar porque as fardas são iguais. Graças a Deus não tem acontecidos atentados na mesma proporção que [Santa Catarina], mas a segurança é preocupante com a onda de fake news e ódio”, declarou Oliveira, detalhando que cobra ao município e estado medidas para aumentar a segurança nas escolas.
Em entrevista à Tribuna da Bahia, uma estudante, que terá a identidade e idade preservada, revelou que sente medo de um ataque após ver um colega sendo morto dentro da escola. “Eu realmente tenho medo de ir para a escola todos os dias. Acho que nunca vou esquecer do dia em que um homem matou um aluno dentro da minha escola [em Pernambués]. Por mais que tenha o tio da vigia, não me sinto segura, pois parece que outra invasão pode acontecer a qualquer momento e que pessoas inocentes podem ser mortas por uma bala perdida ou porque alguém quer fazer o mal”, desabafou.
Em entrevista à Tribuna da Bahia, a psicóloga Luz Correa falou sobre motivos que podem influenciar atitudes violentas contra alunos. “Os ataques dentro das escolas podem ser resultado de uma combinação de fatores, incluindo problemas de saúde mental, traumas passados, dificuldades de socialização e outros problemas pessoais e interpessoais. Além disso, a cultura da violência que é perpetuada em nossa sociedade, inclusive na mídia e na política, pode contribuir para a normalização da violência e para a criação de um ambiente propício para esses tipos de comportamento”, iniciou.
Em seguida, a profissional pontuou que a prevenção da violência dentro das unidades escolares só funciona se houver ajuda de diversos setores da sociedade. “É importante entender que a violência não é causada por uma única razão e não é algo que possa ser facilmente prevenido com uma solução única. É necessário adotar uma abordagem multidisciplinar para prevenção da violência dentro das escolas, que envolva não apenas a psicologia, mas também outras áreas, como a segurança pública e a educação”, afirmou.
“É importante lembrar que a prevenção da violência dentro das escolas é uma responsabilidade coletiva. Todos nós, incluindo pais, educadores, profissionais de saúde mental e membros da comunidade, devemos trabalhar juntos para garantir que nossas escolas sejam lugares seguros e acolhedores para nossos jovens”, completou.
Tribuna/Foto: Reprodução/TV Globo


