“O problema do desemprego é a falta de uma política voltada para o crescimento econômico”
Por Guilherme Reis, Editor de Política; Henrique Brinco, Repórter e Paulo Roberto Sampaio, Diretor de Redação
O economista e escritor Armando Avena acredita que falta uma política econômica forte para que o Brasil seja retirado da crise que se afundou, sobretudo após a pandemia da Covid. Imortal da Academia de Letras da Bahia, ele acaba de lançar seu décimo livro, “Os 7 Vocábulos”. Em entrevista à Tribuna, o ex-secretário do Planejamento do Estado da Bahia, no período 2003-2006 do governo Paulo Souto, traça um panorama sombrio para 2022. “As perspectivas para 2022 não são boas. São perspectivas de, se não o agravamento da inflação – porque provavelmente os juros vão impedir esse agravamento -, mas com certeza o país vai estar em processo de baixo crescimento ou de recessão”, acredita. Na visão dele, a alta dos combustíveis e do dólar são um reflexo de problemas na condução do Ministério da Economia. “O ministro da economia, o doutor Paulo Guedes, fala muito e realiza pouco. Ele entrega pouco do que ele promete e é por isso que o Brasil está, a cada dia, com problemas se agravando. Nesse momento, o problema brasileiro não é só de combustível, é falta de política na área de combustíveis, na área da inflação, na área fiscal, na área do déficit público e por aí vai”, ressalta. Ainda no papo, ele faz projeções e revela detalhes de seu novo trabalho.
Tribuna – A economia brasileira e baiana na sua opinião teve uma evolução melhor em 2021 do que em 2020, considerando a pandemia e essa crise?
Armando Avena – Sim. Tanto a economia baiana, quanto a economia brasileira, tiveram um desempenho melhor. Mas isso tem a ver com o baixo crescimento registrado em 2020. Ou seja, estamos comparando com um período em que a economia estava praticamente paralisada. Então, a Bahia vai crescer cerca de 4,5% a 5%, mais ou menos – o mesmo que o crescimento nacional, talvez um pouco menos. Mas isso não significa dinamismo econômico, pelo contrário: o que se vê hoje é que o Brasil já registra uma recessão técnica que significa dois trimestres consecutivos com crescimento negativo do PIB. A economia, embora vá crescer em 2021, cresce por um efeito estatístico e não porque está efetivamente com dinamismo econômico. Na verdade, é o contrário, a economia brasileira, e naturalmente a baiana, também está patinando numa série de problemas econômicos.
Tribuna – Na sua avaliação, há risco de a inflação disparar, considerando o ambiente para as próximas eleições e os pré-candidatos que estão postos até o momento?
Armando Avena – Esses problemas econômicos que eu citei são fundamentalmente três: a inflação, que vai chegar a dois dígitos no final do ano; o problema fiscal, que está sendo agravado pela fórmula como vem sendo conduzida a política econômica do governo, especialmente com o bypass no teto de gastos; e, além disso, a incerteza que ronda o mercado e que faz com que a taxa de câmbio, o dólar, tenha uma cotação nas alturas. Tudo isso gera um processo de incerteza que a gente não sabe exatamente como vai desaguar em 2022. O Banco Central está fazendo a coisa certa, ou seja, ele está aumentando os juros para, com isso, conter a inflação. Mas o grande problema é que a inflação brasileira não é uma inflação de demanda e, desse modo, não basta aumentar os juros. É preciso ter uma ação na política fiscal, é preciso ter uma ação no câmbio, é preciso reduzir a incerteza que paira na economia brasileira. No entanto, 2022 é um ano de eleição. E o que a gente espera é que haja mais incerteza ainda. Portanto, as perspectivas para 2022 não são boas. São perspectivas de, se não o agravamento da inflação – porque provavelmente os juros vão impedir esse agravamento -, mas com certeza o país vai estar num processo de baixo crescimento ou de recessão.
Tribuna – Quais são os principais impactos desse aumento constante da Selic, que já tem um novo aumento previsto?
Armando Avena – Aumento de juros é uma receita clássica. O objetivo é conter a demanda, desestimular que as pessoas comprem e, com isso, obrigar a redução dos preços. Ocorre, como eu já disse, que a inflação brasileira não é de demanda. O custo dos combustíveis, que continua aumentando, vai ser repassado para os preços, independente se os juros estiverem altos ou não. E o aumento da energia elétrica também vai ser repassado aos preços, independente da taxa de juros ser alta ou não. Então, o que vai acontecer é o pior dos quadros. É um processo de redução da demanda que vai gerar uma recessão. Mas, ao mesmo tempo, ainda ficará um resíduo inflacionário, ainda haverá um impacto inflacionário, porque já começa a haver algum grau de indexação. E, além disso, alguns preços vão continuar subindo, porque o frete que é feito com combustível vai crescer cada vez que a gasolina e o diesel aumentarem. Então, o Brasil está no momento em que ele não tem solução para o seu problema. Não basta o aumento da taxa de juros. Ainda não é suficiente para conter o processo inflacionário. Por isso, na minha concepção, o que se espera pra 2022 é provavelmente uma estagflação, que é uma mistura diabólica de economia estagnada e inflação ainda alta.
Tribuna – Na sua opinião, esse surgimento de novas variantes do coronavírus causa ainda mais incerteza e retarda a retomada da economia?
Armando Avena – Olha, claro que causa mais incerteza. Tudo vai depender da capacidade de contágio da nova variante ômicron. É preciso ainda ter alguma calma, porque se disse a mesma coisa da variante delta e a variante delta não atingiu o Brasil se esperava, felizmente. Eu não creio também que a variante ômicron venha atingir o país também com essa força, já que grande parte da nossa população está vacinada. E, felizmente, não existe a irracionalidade que existe em alguns países de pessoas que não querem se vacinar por causa de crenças políticas. O Brasil já está com grande parte da população vacinada. Além disso, eu acho que não haverá um impacto tão grande na economia, porque a maioria dos setores já têm protocolos bastante elaborados. Já estão atuando com toda a segurança sanitária e mantendo todos os rígidos padrões de garantia para que não haja contágio. Então, eu não creio que a economia de 2022 vá ser tão afetada pela Covid-19. É claro que alguns setores, como o setor de grandes eventos, o setor do carnaval, o setor de que exige grandes aglomerações… Esses setores continuarão sendo pressionados, mas eu não creio que haverá um grande problema econômico. Até porque essa variante parece ser menos letal e até porque a economia já aprendeu a conviver com a covid-19.
Tribuna – A política de preços da Petrobras é a única causa para esse aumento constante do preço dos combustíveis?
Armando Avena – Olhe, a questão dos combustíveis é uma questão complexa. E, como tudo no Brasil, ela é tratada de maneira equivocada e com forte conteúdo político. A política de preço da Petrobras não é culpa de ninguém. Naturalmente, a Petrobras tem que continuar realizando reajustes de acordo com o preço internacional do petróleo. Ela não pode fugir a isso. Mas não é apenas isso que faz o preço subir. É também uma política equivocada do Governo Federal no âmbito cambial. Não há uma política para o diálogo no sentido de reduzir a cotação do dólar. Não há políticas. O Banco Central não vem atuando pra reduzir a cotação do dólar. É preciso ter uma política fiscal, que não se gaste cada vez mais, que mostre que o Governo está sendo austero. O que a gente tá vendo é o contrário. A PEC dos Precatórios vai aumentar o gasto público. A gente está vendo aí emendas dos parlamentares, que estão aumentando o gasto público. Tudo isso leva à incerteza para a economia, porque se deu um bypass no Teto de Gastos. O que se fala muito é que o grande problema é o ICMS. Isso é uma balela. O ICMS é alto sim, não há qualquer dúvida. É alta a incidência de imposto sobre os combustíveis, mas isso não é uma variável que possa ser resolvida pelos estados. Se você simplesmente suprimir o ICMS dos combustíveis, os estados não vão ter dinheiro nem para pagar professor, nem para pagar policiais. O ICMS de combustíveis é um dos principais itens da receita dos estados. Então, para reduzir o ICMS, tem que ser feito de acordo com o Governo Federal. Não adianta pensar que o estado sozinho pode fazer. Pode fazer em pequenos percentuais, mas no global não resolve nada. Então, o que falta na verdade ao Brasil – não é só na política de combustíveis, é na política fiscal, é na política inflacionária -, falta política econômica. O ministro da economia, o doutor Paulo Guedes, fala muito e realiza pouco. Ele entrega pouco do que ele promete e é por isso que o Brasil está, a cada dia, com problemas se agravando. Nesse momento, o problema brasileiro não é só de combustível, é falta de política na área de combustíveis, na área da inflação, na área fiscal, na área do déficit público e por aí vai.
Tribuna – Sobre essa questão econômica, o que o governo pode fazer, considerando o grande número de desempregados no país?
Armando Avena – O desemprego é um efeito de toda a política econômica que está sendo realizada. É uma política econômica que não estimula o investimento. Por que ela não estimula o investimento? Ela não estimula o investimento porque, com as taxas de juros altas, ninguém vai ser estimulado a investir. Para você tomar dinheiro emprestado para investir é preciso que a taxa de retorno seja muito alta. Então, com a retomada do crescimento econômico, é que se conseguiria reduzir o desemprego. Claro, o desemprego foi, em alguma medida, fruto da pandemia. A pandemia fez aumentar o nível da taxa de desemprego. Mas, agora, que está concluindo a retomada da economia, a retomada está se dando em ritmo muito lento. O Brasil está em recessão há dois trimestres consecutivos. O país não cresce e isso significa que ninguém contrata mão de obra se não tem perspectiva de crescimento. O problema do desemprego é a falta de uma política voltada para o crescimento econômico. Na verdade, nós estamos num país, e é preciso que isso seja dito, em que há muita conversa, há muita polarização, mas o fato concreto – que é a economia – não vem sendo tocada de maneira correta. E há um detalhe: economia precisa de paz no sentido de paz política. Ou seja, não há registro de país que tenha tido crescimento econômico sustentado com uma polarização política que divide o país. Então, o problema do Brasil é econômico e é político e o desemprego é o fruto desse desacordo que há na política e na economia.
Tribuna – Além de economia, o senhor se dedica à literatura e acaba de lançar seu décimo livro, “Os 7 Vocábulos”. Qual o tema desse novo trabalho?
Armando Avena – A inspiração veio um pouco da minha experiência como escritor e, aliás, esse livro tem muita a ver com a minha história. Nele relato muitas histórias que ouvi e que ficaram na minha imaginação. E crio personagens diferentes, como a “casa”, que retrata o lugar em que vivi por muitos anos, e o cão, que tem um papel importante no enredo. Os personagens principais, no entanto, são o escritor e seu editor.
Tribuna – No release de divulgação se diz que o livro retrata o conflito entre um escritor. Como isso se dá?
Armando Avena –O tema central do livro é a relação entre um escritor que almeja o reconhecimento e um editor em busca de um best-seller. A relação entre o autor e o editor é muitas vezes conflituosa, pois, embora não se possa generalizar, os dois tem objetivos muitas vezes conflitantes. Mas a intenção do texto não é atacar os editores, afinal, conheci editores maravilhosos, como Ênio Silveira e outros, e meu editor atual que tem muita sensibilidade. Mas há também os pareceristas e editores que só pensam no mercado. Mas na verdade ambos precisam um do outro. Aquiles só existiu graças a Homero e Homero só existe graças aqueles que divulgaram suas histórias. Não há, portanto, razão para demonizar os editores, a não ser que isto resulte…em uma boa história. E essa história começa com um pacto demoníaco que o escritor faz com seu editor e que pode resultar em morte e daí surge uma série de histórias.
Tribuna – Então não é um romance? Tem outras histórias?
Armando Avena -Na verdade, o leitor não saberá exatamente se estará lendo um livro de contos, um romance, uma peça de teatro, ou talvez, esteja lendo tudo isso em uma história diferente. No livro, o escritor faz um pacto com o editor e, à semelhança do Fausto de Goethe, ele percebe que está vendendo sua alma. Então, à medida que a trama se desenvolve, ele vai se rebelando e surpreendendo o editor. Faz isso de várias maneiras e o leitor não saberá exatamente o que está lendo, mas não vai conseguir parar de ler. Por mais que precise do editor, o escritor é quem cria – ele é o deus da criação, ainda que rodeado de demônios – e tem ao seu dispor, o tema, os personagens e forma da narrativa. E é assim que ele vai enfrentar o editor e o mercado.
Tribuna – Então como classificaria o livro?
Armando Avena -“Os 7 Vocábulos” é um livro sobre o fazer literatura e a literatura é feita, não importa qual a plataforma, com palavras. E como diz o protagonista da história: “as palavras são o meu ofício, posso entortá-las num romance, embaralhar-las num conto ou aprisioná-las num poema”. Mas, stricto sensu, Os 7 Vocábulos é um livro de contos.
Foto: Reprodução/Gshow


